Retrospectiva 2019: o melhor da música


A turnê mais lucrativa, a improvável história por trás da música mais ouvida e uma parceria que não deu certo estão entre os destaques dos últimos meses

Retrospectiva 2019: o melhor da músicaPublicado por Redação BR em 30 dez, 2019 - 12:46 - Foto: Divulgação

O ano dos retornos

Doze anos depois de anunciar a separação musical, os irmãos Sandy e Junior se reuniram para celebrar os trinta anos de carreira. Foram dezoito apresentações, sendo quatro por aqui, com ingressos esgotados. O resultado? É a turnê mais rentável do país. A estimativa é que a dupla tenha arrecadado 120 milhões de reais em bilheteria. A dupla preparou um roteiro bem especial para agradar às diferentes gerações que cresceram com ela. Apostou em As Quatro Estações, Imortal, Dig Dig Joy e Vamo Pulá!, sem grandes piruetas, mas não menos empolgantes na espécie de karaokê que se formou. Os irmãos não foram os únicos que retornaram depois de anos sem dividir palco. Os sertanejos Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé Di Camargo e Luciano, dos Amigos, também comemoraram as duas décadas desde a última apresentação, com uma digna homenagem ao sexto participante, Leandro, morto em 1998. Já Tiago Iorc reapareceu depois de pouco mais de um ano sumido do mapa, em maio, com disco novo, Reconstrução, clipes, a gravação do Acústico MTV e, claro, uma série de shows. Na mesma onda, os cariocas de Los Hermanos lotaram o Allianz Parque para mais um retorno, o que não acontecia desde 2015. Teve até som novo, Corre Corre.

Pop romântico suave…

O trio de irmãos de Niterói Melim já fazia barulho nos bastidores, com composições gravadas por figurões como Ivete Sangalo e Luan Santana. Em 2015, eles começaram a colocar os rostinhos nas canções, que ganharam arranjos do pop suave e romântico, com elementos do reggae e pegada bem praiana. O sucesso foi vindo aos poucos, primeiro com a música Meu Abrigo, depois com Ouvi Dizer. Uma das novidades, o clipe de Gelo bateu 1 milhão de visualizações no YouTube, em menos de 24 horas, e é a segunda faixa mais tocada nas rádios do Brasil. O primeiro disco oficial, que leva o nome dos irmãos, está entre os dez mais ouvidos do Spotify, sendo o único fora do gênero sertanejo.

… e o pop dolorido

A pernambucana Duda Beat mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e entrar na faculdade de medicina. Por lá, experimentou muitas sensações dos desamores: teve um caso que não vingou, aquele fora do crush e término de relacionamentos repentinos. A moça transformou tudo em letra de música, que resultou no disco Sinto Muito, de 2018, mas que tomou a estrada só neste ano. De pegada mais dançante, ela se apresentou em festivais como Lollapalooza e Coala. Em seus shows-solo, predominou a vibração dançante da banda, que ajuda a fortalecer um sentimento um tanto catártico para quem está na plateia. Do álbum, saíram as divertidas Bixinho, Bédi Beat e Back to Bad. Mas a turma descia mesmo até o chão com a música Chega, registrada com Matheus Carrilho e Jaloo.

Sucesso direto do Oriente

Foram duas noites no Allianz Parque de ingressos esgotados. Mas meses antes o septeto sul-coreano BTS já dominava a cidade. Houve muitas lágrimas derramadas, filas e acampamentos na calçada por parte dos fãs, adolescentes, o que causou espanto nos mais velhos (que não tinham ideia de quem eram aqueles meninos). Fenômeno mundial, eles fizeram bonito nos dois espetáculos de maio, com um repertório extenso de mais de vinte músicas. O show foi dividido em etapas. Ora cantavam todos juntos, ora em dupla, cada um com seu momento de brilhar, em músicas que intercalavam pegadas românticas e dançantes. E um detalhe chamou atenção: mesmo com as canções em coreano, a plateia seguia em uma só voz o coro. No palco gigante, equipado com uma alça que chegava até o meio do estádio, LEDs, telões, fumaça e labaredas, os meninos suavam a camisa em coreografias dinâmicas e precisas. Encantou mesmo o final, quando todos eles, um por um, mandaram suas declarações de amor aos brasileiros, incluindo frases em português. Êxtase para poucos.

Funk na tela de casa

Entre polêmicas de letras e bailes, o funk costuma ser o gênero que domina o verão, sempre com nomes novos na parada. Neste ano, eles invadiram outra praia: a Netflix. A série Sintonia, criada por KondZilla, conta a história de três jovens da favela tendo o gênero como pano de fundo. O MC Jottapê (foto) foi uma das revelações. A bola da vez, no entanto, é Kevin O Chris, de Duque de Caxias, no Rio, que ganhou repercussão com o Baile da Gaiola, festa de funk carioca. O rapaz chegou a participar do show de Post Malone no Lollapalooza e a gravar uma faixa em parceria com Drake, dois dos principais artistas de hip-hop hoje.

Cometa adolescente

É comum que as cantoras jovens do universo pop apostem na sensualidade e nas faixas românticas e dançantes. A americana Billie Eilish, de 18 anos recém-completados, vai pelo caminho oposto ao recusar sua sexualização. Seus figurinos para lá de descolados são largos e ela costuma exibir feições bem blasées, além de trazer composições próprias mais sombrias. Pressões da idade, ansiedade e rejeições são temas das faixas, embaladas em um mix de gêneros musicais, bebendo da música eletrônica, trap e até do rock. O primeiro disco, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, foi o mais ouvido dentro da plataforma Spotify no mundo neste ano. A garota se apresenta em maio no Allianz Parque.

Uma rainha para todos

Há pelo menos três anos, quando teve a faixa Infiel entre as mais tocadas das rádios brasileiras, Marília Mendonça começou a calcar sua posição no reinado sertanejo. Em 2019, enfim, ela pode ser coroada rainha do gênero. Seu disco Todos os Cantos Vol. 1 foi o mais tocado no país pelas plataformas Deezer e Spotify. Ela também lidera como artista mais executada por aqui. O vídeo Todo Mundo Vai Sofrer já contabiliza mais de 265 milhões de visualizações no YouTube e emplacou o segundo lugar dos mais vistos do ano no Brasil. Suas parcerias também são destaque. Rolaram com Anitta, em Some que Ele Aparece, com Maiara e Maraisa, em Bebaça, e com Matheus e Kauan, em Vou Ter que Superar. De licença-maternidade, ela deve voltar em março, com dois shows no Espaço das Américas.

Os donos das playlists

Entra ano e sai ano, o sertanejo se mantém na liderança da música nacional. E, se Marília Mendonça recebeu a coroa do gênero em 2019, tem uma turma que não perdeu seus lugares no reinado, como Zé Neto e Cristiano (foto). Além de serem a segunda atração mais ouvida do Spotify e do Deezer, dois de seus álbuns, Esquece o Mundo Lá Fora e Acústico de Novo, estão entre os mais ouvidos das duas plataformas. As faixas Notificação Perfeita e Estado Decadente são as composições favoritas. Matheus e Kauan, com a música Vou Ter que Superar e o disco Tem Moda pra Tudo, também se mantiveram entre os mais ouvidos. Outro que dominou as paradas foi Gusttavo Lima. Com o disco O Embaixador e os sucessos Cem Mil e Milu, o cara ficou entre os cinco músicos mais tocados do país.

O caminho de um hit

Lençol Dobrado é o pedido de um rapaz que tenta convencer a pessoa amada a deixar as brigas de lado e fazer as pazes (entre quatro paredes). A letra foi escrita pelo duo do Mato Grosso do Sul João Gustavo e Murilo, em 2015, na época aspirantes a dupla sertaneja, enquanto dividiam um apartamento em Goiânia. Juntos, os rapazes já tinham emplacado suas composições com artistas como Maiara e Maraisa, Jorge e Mateus e Henrique e Juliano. A canção, no entanto, não entrou em nenhum dos repertórios, nem no deles. Foi somente no ano passado que eles decidiram desenterrar a faixa, que, antes mesmo de produzida por completo, já tinha sido espalhada por mensagens de WhatsApp. Para o lançamento oficial, a música recebeu uma polida digna de sucesso: os arranjos e a produção foram assinados por Dudu Borges, um dos gigantes no ramo. Assim, tomou o primeiro lugar das músicas mais ouvidas nas plataformas de streaming Deezer e Spotify.

Ópera para todos

No meio de confusões nos bastidores, o Teatro Municipal manteve quatro óperas durante o ano. Uma delas foi Prism (foto), da compositora Ellen Reid e a libretista Roxie Perkings, que aborda a violência contra a mulher. Na última, Miguel Falabella adaptou e dirigiu A Viúva Alegre, de Franz Lehar, com diversas referências ao noticiário atual. Já o Teatro São Pedro, que esteve sob ameaça de corte de orçamento e fechamento do espaço nos primeiros meses do ano, manteve a programação consistente, apesar de menos luxuosa. Entre os destaques, L’Italiana in Algeri.

Parceria certeira

Em momentos de necessário debate sobre mortes de jovens negros e LGBTs, abusos de poder e saúde mental, Emicida mandou bem ao reunir um bocado de bons nomes em seu novo disco, Amarelo. A música tema é um show à parte. Ele convocou duas artistas que vêm quebrando padrões: a já consagrada Pabllo Vittar e um dos nomes em ascensão, Majur. Para a composição, o artista fez um sample com Sujei­to de Sorte, de Belchior, com mensagens de força e resistência. Duas apresentações lotadas no Teatro Municipal marcaram o lançamento do álbum.

E uma parceria nem tão certeira assim…

Reunir em uma música os nomões Lady Gaga e Bradley Cooper parecia um sonho. Por que não tentar algo similar por aqui? Os encarregados por fazer a versão nacional da oscarizada Shallow, trilha de Nasce uma Estrela, foram Paula Fernandes e Luan Santana, liderada por ela. A composição liberada em maio começou a fazer barulho antes mesmo de estar completa. Por causa de seu refrão, “juntos e shallow now”, a música viralizou, virou piada e espantou o parceiro musical do palco — Luan não compareceu à gravação do DVD da cantora para dividir o microfone. Paula fincou o pé, não alterou a letra e soltou a sua potente voz sozinha mesmo. A plateia não fez feio no coro e continuou acompanhando a moça na faixa. Melhor parceria.